3 de março de 2016

Obrigada

Obrigada mais-que-tudo, 

tem sido sempre, bem mais que uma pitadinha,

tem sido sempre

garrafas cheias.


26 de fevereiro de 2016

Só vou falar disto uma vez

Nunca quis tocar no assunto, porque acho que o tema é delicado demais, porque mexe demais comigo porque efectivamente já o “esventrei" muitas e muitas vezes.
Este blog sempre me serviu de apoio às dificuldades, e hoje vai servir mais uma vez para enterrar o tema em definitivo.

Sou obrigada a concordar comigo própria, que sim, que tenho evitado escrever sobre o tema, em geral escrever, sobre tudo e sobre nada. Não me queria expor, nem envolver demasiado anónimos, não há necessidade não há porquê.

Mas a minha desilusão é imensa, foi, e é um dos momentos mais difícil que atravessei na minha vida profissional, num momento que pôs em causa a minha sanidade mental, a minha vivência familiar, o meu casamento, a minha própria vida. Confesso que doeu muito, que doí muito, e custa a acreditar que algum dia vou recuperar.

Mas revelar, acordar o mundo para a forma como as Mães são tratadas nas empresas, como o seu trabalho é posto em causa, como se "desfazem" das pessoas como se não fossem pessoas, é uma obrigação que sinto no peito.

Sempre escondi os trâmites do processo, de todos os que não são círculo restritíssimo da minha vida, mas sei que tudo se sabe, portas e travessas existem em todo o lado, e levar uma empresa muito conhecida a tribunal, pode ser tema tabu, pode ser tema que me desacredite hoje e no futuro, perante todos, perante a família, os amigos, os novos patrões a sociedade.

Levar uma empresa querida dos portugueses, da sociedade, com patrões que ganham títulos de comendadores, netos que fazem reportagens constantes na tv, empresa classificada como a que melhor trata os trabalhadores em Portugal, leva-los a tribunal, lutar pelos meus direitos, tentar recuperar a minha dignidade, faz inteiramente parte do meu ser e nunca, nunca seria capaz de tomar outro caminho que não este,

Apesar de ter mantido o assunto, com reservas, na intimidade, isso não significa que, ele não possa ter sido tema à boca pequena, de todos os que trabalham naquela empresa, de todos os que trabalham com medo, de todos os que se sentem mal diariamente com as atrocidades escondidas.

Nada apagará o sofrimento profundo em que estive a viver nos últimos 8 meses, o passar dos dias demorados, o que fazia, se tomava alguma coisa ou não, a paciência com os miúdos, a magreza, que perder 5 kg e pesar 46Kg deixou-me no limiar do saudável, custou horrores, os tremores das pernas, as batidas constantes de carro, das dificuldades em me olhar ao espelho, o número de cacos em que estava a minha dignidade, as pulhices dos advogados, custou-me tanto, tanto.

E depois veio o dia de ontem, e ainda olhei para o telemóvel com esperança, de ver uma mensagem das pessoas que trabalharam comigo e que sabiam que tinha sido despedida, porque tinha muitos filhos, sim, não fui despedida por ser incompetente, ou me ter metido com o marido de ninguém da família, fui despedida, por que tinha muito filhos, porque estive de licença de maternidade e usei as regalias que o estado proporciona às mães.

Bastava-me que alguém daquela empresa, alguém daqueles que se diziam meus amigos, me tivessem dito em segredo “força amiga”, claro que teria preferido, um “f%&@ essa p#$a” mas qualquer uma me satisfazia, e nada, nem uma mensagem, nem um toque, nada, ninguém, estava sozinha, completamente sozinha. Foi tão pouco o que recebi! Foi nada! Tenho a certeza que se fossem lugares opostos, eu não me calaria, não me deixaria intimidar! E iria apoiar os meus amigos de trabalho. Sei que somos todos diferentes, e amar os amigos, é também aceitar os seus defeitos, mas estes 8 meses, não foram defeitos que encontrei, foram falhas, e isso magoou tanto, doeu tanto, e eu já tinha um fardo tão pesado em cima.
Serviu para descobrir que afinal aqueles não eram amigos, são pessoas que passaram na minha vida, e que daqui a uns anos não me vou lembrar de nomes, nem rostos.


Agora, já passou o processo, o assunto está arrumado, eu ganhei!!!
 

Ganhei na justiça, ganhei a razão, a ganhei a verdade, As empresas não podem tratar os trabalhadores como descartáveis, todos temos direitos, mas também temos deveres. As empresas não podem fazer o que lhe apetece, apenas porque apetece, e ficarem assim não apeteceu-me. As empresas, tem de ver os trabalhadores como pessoas, com seres humanos, que trocam trabalho por dinheiro, e não tem de ficar muito, muito agradecidos apenas porque sim. É ultrajante julgar um profissional pela quantidade de filhos que tem, é selvagem, é atroz. E os tempos de progresso, dizem que esse rótulo de que as mães são más profissionais tem se acabar.

Vem ai outra fase tão ou mais complicada, porque eu continuo sem emprego e as contas para pagar são as mesmas, porque afinal os cacos são tão difíceis de colar, porque o estigma da desempregada, não ficou no tribunal, porque nem um único daqueles com quem falava todos os dias, que foram intimados a comparecer na audiência, me olhou na cara, porque na vida não há borrachas que apaguem a humilhação porque que passei, porque não há ninguém, nunca, nem dinheiro nenhum no mundo que me restitua a magoa da rejeição.

 
Continuo sem dormir, só passou um dia, mas apesar de uma sentença favorável, soube-me a pouco, muito pouco.