Ensino em Portugal, Privado ou Público - Parte II, "O verdadeiro Choque: a ausência"

Depois da montanha-russa burocrática do verão — matrículas, MEGA, vouchers e refreshs infinitos nos sites dos agrupamentos —, começou o ano letivo. E com ele, a vida nova no ensino público.

Os primeiros dias foram de entusiasmo e alguma curiosidade: novas escolas, novos colegas, novos ritmos. Havia um certo encanto na liberdade dos horários, nos recreios largos e na possibilidade de almoçar em casa, nos dias de saídas cedo. Mas, pouco depois, começou a realidade a instalar-se. E com ela, o maior desafio que vivemos até agora: a ausência sistemática de professores.

Sim, as greves são um dado adquirido — já sabíamos que existiam. Mas a surpresa maior foi perceber que, mesmo quando não há greve, há falta de professores colocados. E quando há professores colocados, também há muitos dias em que não aparecem. Uns estão em baixa, outros em formação, outros em espera de horário, outros… nem a escola sabe.

Com três filhos em diferentes ciclos, apenas um deles ainda não tem professor de Português colocado. O que naturalmente, me preocupa — é uma disciplina estruturante —, resta-me a esperança que se resolva em breve.

Mas o que me causa mais inquietação, sinceramente, não é tanto a ausência de professores, todos temos direito a faltar, para resolução de questões particulares, mas custa-me ver a gestão do tempo quando há faltas. Custa ver que, por vezes, essas ausências são marcadas nos blocos de aulas, quando poderia haver algum esforço por parte dos professores para recorrerem ao horário não letivo (em que não há aulas previstas) para tratarem desses assuntos que precisam. Seria uma forma simples de minimizar o impacto nos alunos e nas famílias.

No início, achei que podia ser só uma má fase. Mas agora percebo que essa fase é o sistema. 

Ao fim de 14 anos a pagar colégios privados, a mudança trouxe-nos uma folga financeira que se tornou educativa noutras direções: conseguimos finalmente pagar sessões personalizadas de línguas, inscrevê-los em modalidades desportivas mais dispendiosas. Enfim, ganharam um mundo fora dos portões da escola.

Além disso, tenho que reconhecer: a qualidade do ensino, quando acontece, é sólida. Os professores (os que estão, claro) são, na sua maioria, motivados, acessíveis, exigentes e atentos. E a diversidade dos colegas e contextos é um ganho que nenhum colégio privado nos tinha dado.

Além disso, tenho que reconhecer: a qualidade do ensino, quando acontece, é sólida. Os professores (os que estão, claro) são, na sua maioria, motivados, acessíveis, exigentes e atentos. E a diversidade dos colegas e contextos é um ganho que nenhum colégio privado nos tinha dado.

Há uma espécie de lição escondida nisto tudo: aprendemos a deixar o controlo e o “funcionamento perfeito” do ensino privado, e a lidar com o inesperado. Estamos a aprender a viver num sistema com falhas, sim, mas também com espaço, com flexibilidade, com mais vida além do “escola-casa-tpc”.

O futuro? Ainda é cedo para grandes balanços. Mas já é claro que esta mudança está a fazer-nos crescer — a nós e a eles. Com mais buracos no horário, mas também com mais espaço para viver.




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