Confissões

Criada em família católica e colégio de freiras, a minha ida para a faculdade não envergonhou a profissão da religião, e os tantos movimentos de jovens católicos ajudaram a perpetuar as minhas presenças e ações nos eventos religiosos.

Na preparação da minha primeira comunhão, a confissão não foi um processo complexo, que me exigisse muita reflexão. Os pecados de que temos consciência na infância, em geral, não passam das ações travessas de crianças — uma desobediência, uma zanga, talvez um lápis "esquecido" na mochila que não era nosso. Confessávamos com o mesmo tom com que contávamos uma história à professora: sem vergonha, sem peso, talvez até com alguma inocente vaidade por termos algo a dizer.

Na altura, a confissão era mais ritual do que transformação. Era mais gesto do que consciência. Mas foi, ainda assim, a semente de algo que só mais tarde viria a compreender: a necessidade humana de nomear aquilo que nos pesa.

Com o tempo, a vida foi ganhando contornos mais complexos. Os pecados deixaram de ser tão óbvios. Já não moravam nas ações visíveis, mas nos pensamentos que evitávamos, nos silêncios que escolhemos, nas omissões que preferimos ao confronto. E aí, confessar passou a ser outro tipo de ato. Mais íntimo. Mais difícil. Mais verdadeiro.

Confessar, em adulto, deixou de ser apenas um ato religioso. Tornou-se também uma forma de reencontro comigo mesma. De reconhecer o que não está bem, de aceitar que há partes de mim que não quero esconder, mas entender. A confissão passou a ser uma forma de atravessar o labirinto interior, com a esperança de chegar a um momento de paz.

Talvez por isso eu acredite que o efeito mais transformador da confissão não é o perdão — embora esse seja central na fé —, mas o reconhecimento da nossa verdade individual. É ela que nos permite viver com mais leveza, mais inteiros, mais em paz com o que somos e com aquilo que ainda não conseguimos ser.

E há algo de profundamente libertador nisso. Porque confessar — a Deus, a alguém, ou apenas a nós próprios — é um exercício de humildade, sim, mas também de amor. Amor pela nossa história, pelas nossas imperfeições, pela vontade sincera de fazer melhor.

Hoje, continuo a confessar-me. Nem sempre da mesma forma. Nem sempre diante do mesmo altar. Mas sempre com a intenção de regressar a esse lugar onde posso ser verdadeira — sem medo, sem máscaras, sem ruído. Porque acredito, profundamente, que só quem se confessa pode, de facto, começar de novo.


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